doclisboa 2009
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Diário do doclisboa: Dia 10 (24/10) - Por João Miranda |
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Segunda, 26 Outubro 2009 12:28 |
No penúltimo dia do festival, dois filmes antagónicos, um representando o passado do comentário político que passa por documentário e outro que parece apresentar um futuro optimista para o género em Portugal. Em “ Loin du Vietname” encontramos o preciosismo, a arrogância de vários realizadores franceses em plena guerra do Vietname. Trata-se de um filme de propaganda política com poucos elementos de documentário que o permitam ser exibido neste festival, mas esse ponto já o referi em relação a outros filmes apresentados. É um documento histórico porque mostra a forma como se foi dando a alienação mediática e desinvestimento político que caracterizam a nossa sociedade actual, para além do dramatismo e mentalidade infantil da “counterculture”, quer americana, quer europeia. Apesar de gostar da obra de alguns dos realizadores envolvidos, como filme acaba por não funcionar: desconexo e repetitivo, tornando-se mesmo aborrecido nas suas quase duas horas de duração. É o tipo de filme que dá mau nome ao cinema e aos documentários pelo seu obscurantismo aparentemente informado e pela sua arrogância intelectual, alienando o público em geral em favor da criação de uma elite. Já “ Futebol de Causas”, o segundo filme, mostra que essa elite sem um movimento popular associado, de pouco é capaz. A partir dos protestos académicos em Coimbra nos anos 60 e da ida do Académica à Taça de Portugal, são explorados, por imagens da época e por entrevistas aos vários participantes, os movimentos de oposição ao regime. Com uma imagem cuidada e com o uso de recursos de arquivo criativo, o filme prende-nos e esclarece uma situação que, na altura, por causa da censura, não foi compreendida em toda a sua magnitude. Independente do que possa ter sido, só 5 anos depois e essencialmente devido à revolta militar por causa da Guerra Colonial é que a revolução foi possível. Há que não esquecer que o Cinema é um meio de massas e que, mesmo recusando o imbecilizar e o abastardar dos valores e conceitos, é suposto atingir um número grande da população da qual acaba por viver. Filmes como “Loin du Vietname” acabam por ser mais prejudiciais a longo prazo para os seus temas e para o Cinema. Esperemos que a produção nacional continue no bom caminho. |
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Diário do doclisboa: Dia 9 (23/10) - Por João Miranda |
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Segunda, 26 Outubro 2009 12:26 |
Mais de seis décadas depois de um massacre efectuado pelas forças alemãs a saírem de Itália e após o “esquecimento” de uma investigação efectuada há mais de quatro, “The State of Exception” cobre o julgamento feito in absentia aos vários elementos das SS que participaram na morte de mais de setecentas pessoas em menos de sete dias. Desde as histórias pessoais dos poucos sobreviventes, às implicações legais do referido “esquecimento” pelo estado italiano da investigação efectuada, passando pela mentalidade das tropas alemãs para com os “Paisanos” e pela moralidade e objectivos de efectuar um julgamento tanto tempo depois, este é um filme que, praticamente sem nos tirar da sala do tribunal, nos leva a perguntas básicas sobre a nossa humanidade e a que limites podemos nós chegar, como espécie, se a situação assim se propiciar. O título refere-se ao conceito desenvolvido pelo filósofo Giorgio Agamben, baseado no conceito legal romano do “homo sacer”, uma pessoa que pode ser morta por qualquer outra, sem procedimentos legais, e privada de quaisquer direitos civis. É um filme difícil, sobre um tema difícil e bem conseguido.
Constantin and Elena
O que é o Amor? Depois de décadas de Hollywood nos vender um Amor de pacotilha, de fácil digestão e tão efémero como os filmes, como conseguimos nós perceber a passagem daquele entusiasmo inicial dos primeiros anos para o companheirismo e a grandeza dos pequenos gestos? “Constantin and Elena” mostra o dia-a-dia de um casal que está junto há mais de 55 anos, depois de educarem filhos, netos e assistirem agora ao nascimento de bisnetos, a dureza da vida rural e da velhice que os vai afligindo com várias maleitas físicas. A interacção dos dois é tão cúmplice que quase nos parece estranha, desprovida de grandes sentimentalismos e sem aquele romantismo transformado em produto que os media nos vendem para poderem vender acessórios inúteis e que tanto nos baralham quando chegamos a este tema do Amor. “Constantin and Elena” é um filme verdadeiramente emocionante e inspirador na sua simplicidade e sinceridade. Ainda que duvide da possibilidade de vir a ter uma distribuição comercial, espero que o filme tenha pelo menos oportunidade de obter o reconhecimento que merece.
Long Distance Love
Outro filme sobre Amor que escapa aos estereótipos da indústria. Neste caso, seguimos o percurso de um casamento combinado, numa região em que a falta de trabalho obriga o jovem marido a abandonar a mulher grávida para procurar emprego em Moscovo. É um filme perturbante na forma como a câmara se relaciona com o seu tema e com a pobreza extrema que filma, sem nunca participar ou ajudar as pessoas que explora. É esta obscenidade que se torna preocupante em muitos dos documentários apresentados e que atinge aqui, perante tantas acções facilmente evitáveis ou situações desagradáveis, um pico. Sei que a pobreza é sempre mais aflitiva quanto mais perto se está dela e que, mesmo que os realizadores deste filme ajudassem esta família, não conseguiriam resolver os seus problemas a longo prazo, mas esta relação do ocidente com o terceiro mundo e a existência de um mercado para filmes assim, levam-me a perguntar qual o propósito deles e qual o seu sentido para o espectador. Nas imagens finais do filme, nada parece ainda decidido e não sabemos se as pessoas que acompanhámos conseguirão alguma vez ultrapassar o limite da pobreza em que vivem, era suposto ir para casa feliz ou infeliz por isso? João Miranda
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Diário do doclisboa: Dia 8 (22/10) - Por João Miranda |
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Segunda, 26 Outubro 2009 12:20 |
“Madam Butterfly / Blind Pig who wants to fly”
Parte da “Secção Riscos” do festival, estes dois filmes só dificilmente se poderiam definir como documentários. O primeiro mostra uma mulher que foi abandonada pelo amante enquanto percorre uma central de autocarros, insegura do que fazer e sem dinheiro suficiente para comprar um bilhete para voltar a casa. Filmado no meio dos passageiros reais dessa central, só esse elemento poderia fazê-lo pretender ser um documentário, já que é obviamente uma obra de ficção. Vê-se como uma curta num qualquer festival de cinema. O segundo levanta ainda mais dúvidas. Assumindo uma imagética surreal e com um script ficcional, o único elemento que o prende ao género documental é um pedaço de filmagem que surge continuamente, como significante das acções das personagens que vão decorrendo no filme. Parece-me difícil argumentar que seja um documentário ou ainda nos arriscávamos a dizer que todos os filmes “baseados em histórias reais” que têm invadido os ecrãs são também documentários. Mais outro que se vê como uma curta experimental num festival de cinema não específico.
Soledad / October Country
“Soledad” segue a rotina de um homem que vive sozinho numa ilha no delta do Paraná, responsável por garantir o crescimento saudável de árvores para uma indústria de celulose. Descoberto quase por acaso pelo realizador quando este preparava outro projecto, concordou na realização deste filme. É uma história de privação e solidão, de uma vida que o levou indiferente e cruel ali, afastado das poucas pessoas que ainda se preocupam com ele e que já por duas vezes o procuraram por o pensarem morto. É pena que a história seja contada por legendas inseridas entre planos, negando a voz ao que parece ser uma pessoa interessante, mas isso não diminui o impacto da realização em mostrar a solidão e a dificuldade de uma tal vivência. No final do filme apenas uma frase, “Living is fucking hard”, sozinho numa ilha, no meio de nada, parece-me que sim.
Donald Mosher fotografou a sua família durante anos, muito antes de Michael Palmieri ter visto essas fotografias e lhe ter proposto a realização deste documentário. É um retrato de uma parte da população norte-americana que não costuma surgir em filmes ou na televisão. A luta de um casal para tentar fazer as coisas bem, sem grandes meios e com muitas das pessoas à sua volta fechadas no seu egoísmo e na sua dor. Debaixo da disfuncionalidade da família, que estamos tão habituados a ver em filmes, esconde-se uma corrente de violência, de abuso, de crime, de ciclos difíceis de quebrar.
Há algo desconfortável em ver este filme, na forma como, por vezes, alguns elementos conseguem formalizar tão bem as suas limitações ou erros, mas persistem em cometê-los de forma inconsequente. É um bom documentário, mas com o qual tive dificuldades em relacionar-me e eventualmente terá sido menos eficaz por isso.
“Driving Men”
Susan Mogul é uma realizadora experimental que procura, neste documentário, a razão pela qual ainda está solteira e a sua relação com os homens. É um filme passado quase exclusivamente em carros, onde entrevista o seu pai, os seus irmãos e alguns ex-amantes, enquanto, pelo meio, vai contado a sua vida, com filmes e fotografias. Com um tom ligeiro e cómico, será fácil de reconhecer na procura da realizadora elementos que nos toquem e com os quais nos identificamos.
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Diário do doclisboa: Dia 7 (21/10) - Por João Miranda |
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Sexta, 23 Outubro 2009 16:53 |
Todas as sessões deste dia se prenderam com um retorno ao passado a partir de documentos da época. Em “ 48”, Susana de Sousa Dias, a partir de fotografias tiradas pela PIDE, conta a história das prisões e a tortura utilizada contra as pessoas que iam contra o regime. É um filme longe de perfeito, com problemas no ritmo e na montagem e um abandono de estilo mesmo no final do filme, mas é um filme importante. Há uma nostalgia parcial em relação ao regime e aos tempos que se viveram que é facciosa e há já muitas pessoas que se esqueceram ou desconhecem por completo o que era viver sob ele. É um filme duro e, como só vemos as fotografias tiradas no momento em que as pessoas foram presas, enquanto estas nos contam algumas das coisas que viveram, acaba por deixar muito à imaginação, tornando-se mais eficiente do que se se limitasse a mostrar ou a recriar essas histórias. Espero que tenha uma distribuição comercial e que seja exibido nas salas de cinema. Na sessão seguinte, “ In the Shadow of the Mountain”, seguimos as cartas do pai da realizadora e imagens da época, na reconstrução da passagem deste pelos sanatórios da Suíça na tentativa de recuperar de tuberculose. Só que a estadia deste coincide com a subida do fascismo ao poder e a segunda guerra mundial, tornando-se uma investigação pessoal em histórica e acabando por pôr em causa a neutralidade suíça perante todas os acontecimentos dessa época. Com um ritmo lento e uma imagem preocupada, o filme percorre a história europeia e da Palestina, e da própria tuberculose, com a enfermidade do pai como fio condutor. A última sessão fez algo único. A guerra do Vietname foi a primeira guerra mediatizada e reinventada já várias vezes no cinema e televisão. Há imagens icónicas que são tão conhecidas que já foram reapropriadas em outras produções e que é impossível não conhecer. “ Indochine” conta a história da antiga Indochina (Vietname, Cambodja e Laos) desde o início do século, sobre administração francesa, até ao final da guerra do Vietname, só com imagens da altura, sem nunca pegar em nenhuma dessas imagens já tão conhecidas. É um filme esclarecedor sobre a evolução política da zona e que faz um esforço por manter a região como foco principal, contando a história de uma forma não-eurocêntrica, como estamos habituados a conhecê-la. Como as filmagens usadas são muitas vezes de filmes de propaganda, há uma grandiosidade nas imagens e uma qualidade artística durante todo o filme, o vermelho das bandeiras é algo verdadeiramente marcante, com a paisagem a assumir um tom monocromático de castanhos ou verdes. Um filme a ver para quem se interessa pelo tema e quer uma visão nova do mesmo.
João Miranda
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Diário do doclisboa: Dia 6 (20/10) - Por João Miranda |
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Quinta, 22 Outubro 2009 15:55 |
The Revolution that Wasn't
Com começo um ano antes das últimas eleições eleitorais na Rússia, acompanhamos neste documentário o percurso de uma organização política banida e a sua tentativa de participarem nessas eleições. Na realidade são dois filmes dentro de um único: por um lado, temos as maquinações políticas internas contra aliados, as lutas de poder, a fuga à polícia e todas as dificuldades que vão surgindo no percurso; por outro, a história de um pai que abandona o partido e vai procurando um maior refúgio na tradição e na igreja e do seu filho que se vai envolvido mais nesse mesmo partido. No final, é um retrato da sociedade e da política russas actuais, num cenário económico e ideológico falido e da procura no dia-a-dia da forma de lidar com as dificuldades que vão surgindo.
Apesar de realizado por uma mulher, este filme é profundamente masculino, talvez porque não haja muitas mulheres a participarem na política russa, talvez por causa da história pai / filho que fornece o lado mais pessoal à história. Apesar de este ser um festival de documentários, a vontade com que fiquei foi a de acompanhar melhor a história do pai e do filho em movimentos contrários em relação ao partido, algo mais pessoal e que, com um terceiro elemento que, apesar de não ter a ver com essa história, foi incluído quase como se fizesse, faria um filme de ficção mais interessante.
The Future is Now / To Translate
“The Future is Now” tenta, através de algumas entrevistas a um grupo de pessoas, perceber qual a esperança dos cubanos num regime em que a sua figura mais importante se encontra agora ausente. Dá a sensação de estarmos a ver uma galinha sem cabeça a correr, com todas as pessoas viverem sem grandes mudanças e num estado de estase, um compasso de espera antes de algo acontecer. É um filme curioso, com um toque muito pessoal e uma visão mais íntima de alguns dos seus participantes, mas que deixa algumas pontas soltas para quem não conhece a sociedade cubana actual.
O papel e importância da tradução e do tradutor sempre foi alvo de muita discussão e debate, “To Translate” tenta explorar esse tema com a participação de vários tradutores e com paralelismo entre o pão e a sua produção, também parte na vida diária e com variações culturais e locais marcadas, e a música. É um documentário que não arrisca muito, mas eficiente, focando-se mais no tema e nos seus objectivos do que no seu formato. Recomendado a quem se interesse pelo tema ou quem esteja na área, há vários elementos que de certeza farão sorrir ou mesmo rir quem o veja e muito material para pensar.
Behind the rainbow
Lembro-me bem de quando o Nelson Mandela foi solto em 1990. Ainda uns meses antes tinha caído o muro e parecia viver-se um momento de esperança depois de tantos anos de Guerra Fria. A libertação de Mandela era mais um passo para acabar com o Apartheid e para diminuir as desigualdades na África do Sul. Anos depois, esse país parece estar ainda num regime de Apartheid, agora não de discriminação aberta, mas económico. Como se chegou a esta situação? Responder a essa questão é o objectivo de “Behind the Rainbow”.
O filme tem quase duas horas e vinte de duração e percorre com cuidado todo o desenvolvimento do ANC e as escolhas que foram sendo feitas durante e depois do regime, vendo-se nas suas personagens um retrato das diversas correntes políticas e económicas mundiais e as suas influências até se chegar à situação actual. Recorrendo a imagens de arquivo e a entrevistas, este é mais um documentário sólido e ortodoxo, devendo passar num qualquer canal dedicado ao tema e, no máximo, ser editado em DVD; não me parece que vá fazer o circuito de cinema comercial, mesmo com o sucesso que o género tem tido estes anos.
João Miranda
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